quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

ANO NOVO


De Carlos Drummond de Andrade

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das coisas menos percebidas (a começar pelo seu interior) novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, mas com ele se come, se passeia, se ama, se compreende, se trabalha, você não precisa beber champanhenão precisa expedir nem receber mensagens.
Não precisa fazer lista de boas intenções para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido pelas besteiras consumidas nem parvamente acreditar que por decreto de esperança a partir de janeiro as coisas mudem e seja tudo claridade, recompensa, justiça entre os homens e as nações, liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, direitos respeitados, começando pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.
*Fotografia: Naty Lages

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

NAMORADO


[Atribuído a Carlos Drummond de Andrade]

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.
Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.
Fotografia: Beth Lima

EU!!!


Eu sou a Natalia... Natalia sem acento por que esqueceram de colocar, e é assim que eu gosto do meu nome.
Para alguns eu sou a Naty, para outros a Na, a Nata, Tatái...Pitomba, Peteca.... Hoje eu percebo que sou muitas “Natalias” num único corpo, e cada um que de mim se aproximar poderá ver-me pelo ângulo que melhor lhe convier.

Eu não sei qual é o meu melhor ângulo, nem como é o meu todo... sei apenas que não é perfeito, mas que as partes se completam....que hora mostram-se por inteiro, hora escondem-se feito um caramujo... feito a lua minguante ou quarto crescente.

Sei sou que noite e dia, frio e calor, sol e chuva, doce e salgado, praia e serra, sim ou não, 8 ou 80... Sou uma dicotômica tentando e aprendendo ser eclética.

Em contradição, gosto de uma variação infinita de ritmos musicais. Meus amigos são de diversas tribos; sem rótulos e sem raças pré-estabelecidas... AMIGOS!!! E muitos são eles... para horas e ocasiões diversas e cada um com as suas diferenças, mas que também me completam!

Sou meio menina e meio mulher;
Sou metade coragem e metade medo;
Tenho sucessos e fracassos;
Tenho acertos e erros [talvez o difícil seja admiti-los];
Sou professora e aluna; hora ensino outras tantas eu aprendo, todos os dias;
Tenho conflitos, dúvidas e perguntas sem respostas...
Tenho 5 anos, mas também tenho 28. Logo devo estar na crise dos trintas!

Quero colo e proteção... mas também quero dar e proteger.

Eu cansei...eu quero parar e não sei se devo, quero seguir e não sei para onde....

Sou doce, sou fera, sou louca.... sou pipoca, brigadeiro, morango com leite moça, conversa entre amigos, cinema em casa, guerra de travesseiros,.nascer e pôr-do-sol... Sou choro e riso, dor e felicidade!!!!

Sou romântica, explosiva, impulsiva, incisiva [ou seria intolerante?], sou perfeccionista. Já desejei ver no próximo a perfeição que não existe e a “normalidade” que foi definida por alguém que desconhecia a diversidade do mundo em que vivemos...

Eu sou força e fraqueza, sou livros, sou norte e sul, sou rosa e espinho...

Gosto do barulho da chuva e das águas que correm e brotam de suas fontes, gosto do cheiro do mato, do verde, mas não abro mão da “cidade grande” nem da paz da cidade pequena.

Eu já quis um príncipe encantado, já acreditei em Papel Noel, em monstros.... já quis um castelo, mas não sou bela nem fera.... Sou o que sou, que descubro a cada dia...

Eu sou AMOR, sou toda a MINHA FAMÍLIA... Sou feita dos meus AMIGOS e dos inimigos... sou passado e sou hoje... sou um pouco de tudo e de todos que passaram, que passam (e que ficam) na minha vida...
Fotografia: David Marques
Texto: Naty Lages

CALENDÁRIO NOVO


Vem chegando um novo calendário... Como tal, cheio de novas – ou velhas - promessas, cheio de esperanças e com a mesma exclamação de que as folhas do velho calendário passaram-se tão rapidamente, tão despercebidas... [Com aquele ar triste de quem o deixou acabar!].

Agora, em um momento reflexivo, tudo se conjuga no passado... Mas logo as promessas e as esperanças são refeitas, as juras são mais enfáticas... Mas, na verdade, nos daremos conta de que tudo se repete e, parados, olhamos novamente o tempo passar.

Dia a dia, mês a mês arrancamos as folhinhas do calendário. Hora tristes, hora entusiasmados... [Mas os dias continuam a passar...].
...passam como a leve brisa do vento; passam como o perfume suave da moça bonita... Passam, passam... E eu, talvez como você, esteja apenas constatando isto - que tão óbvio já é.

Quiçá, a hora agora seja de não deixar passar. Sinta-se passear pela Vida, mas não a deixe passar por você... Promessas?! Deixe-as para os crédulos, você provavelmente esquecerá delas. O que importa agora é perceber que existem novos 365 dias e motivos para se fazer diferente...

365 novos dias para...
...amar mais.
...doar-se.
...pular, se preciso.
...gritar se der vontade.
...declarar-se; pode ser sua última chance.
...voar de asa-delta, de pára-quedas, seja o que for.
...aprender aquele idioma.
...quebrar o velho porquinho [carregado de sonhos e velhas promessas guardadas].
...viajar, fazer as malas ou apenas pegar o primeiro trem ou ir de bicicleta [o que isso importa?].

Então perceba... A VIDA está lhe oferecendo novos 365 dias – talvez motivos - apenas para você apenas VIVER...

VIVER INTENSAMENTE!

Texto e Fotografia: Naty Lages

MUDAR DE IDADE [dedico aos meus amigos]


Mudar de idade não é só perceber que mais um ano passou e que os fios brancos começaram a aparecer... Mudar de idade não apenas perceber que você não é mais o caçula tão indefeso... Não é apenas perceber que as fotos amarelaram e que você tem uma pilha de agendas dos anos que se passaram... Mudar de idade não é perceber que agora são os outros que te chamam de tia e que você tem uma porção de sobrinhos [mesmo que não sejam filhos de seus irmãos]... Mudar de idade não é se dar conta que a noite não acaba mais às 5h da manhã, que talvez você já não tenha pique para tanto...

Mudar de idade não é apenas se dar conta que o espelho não reflete o mesmo rosto de antes e que sua carteira de identidade é a prova de que os anos passaram... Mudar de idade vai além das provas e das evidências deixadas no corpo pelo tempo....

Mudar de idade é perceber sua capacidade de amadurecimento... É perceber que seu amigo do pré-escolar continua ao seu lado... Mudar de idade é ter o gostinho do seu primeiro carro, comprado com o seu trabalho... É perceber o mundo de gente boa que você conheceu e que ano a ano você tem que aumentar sua lista de convidados... [ela já não cabe numa caixinha de fósforos... risos]

Mudar de idade é perceber que nunca vai estar sozinho, por que ao longo dos anos você teve a chance de encontrar [Graças à Deus] muita gente especial no seu caminho...

MUDAR DE IDADE É PERCEBER QUE “ESPECIAL” É POUCO PARA SE TRADUZIR O QUANTO QUE ESSAS PESSOAS SÃO FUNDAMENTAIS PARA QUE O PRÓXIMO ANO SEJA AINDA MELHOR DO QUE ESSE QUE AGORA SE FINDA. [07 de dezembro de 2006]

Texto e Fotografia: Naty Lages

ODEIO DESPEDIDAS


Despedida!

Despedir-se por quê? A despedida, em geral, traz consigo algum tipo de dor ou sofrimento...Algumas vezes, esse momento tem uma razão especial; um trabalho novo, um casamento, uma viagem longa... Outras vezes, somos obrigados a nos despedirmos por puro desejo do destino... E aí, dizemos: “foi melhor assim”... Mas a verdade é que, qualquer que seja o motivo, a despedida deixa uma dor e um aperto no coração. Deixa cravada nas nossas lembranças o último beijo, o último abraço apertado, o desejo de ir ou de ficar, o adeus, o até breve, a esperança de um retorno, e as lágrimas que correram nos rostos antes da partida.

Algumas vezes nós sabemos que essa ida não tem volta e o jeito é tentar buscar, por mais difícil que seja, as lembranças dos bons momentos vividos.

Outras vezes, ficamos com o coração apertado, contando os dias, as horas e os minutos para que logo chegue o momento de reencontrar a pessoa que deixou tanta saudade e tantas boas lembranças.

Então, ao invés de sofrer o momento da despedida, do sentimento de perda – mesmo que seja irreal – eu prefiro ter na lembrança a última risada que demos, o desabafo, as mãos dadas, o sorvete com chocolate quente que tomamos, a festa que fomos e loucamente rimos e bebemos, as piadas, as brincadeiras, as trocas de confidências, as sessões de cinema em casa, o som da viola, as longas conversas na madrugada... cada momento MARAVILHOSO que vivi com cada um de vocês, meus amigos... e querem saber mais? Sou uma pessoa de sorte, tenho muitas pessoas de quem sentir saudades.

E SE EXISTE SAUDADE, É SINAL DE QUE ALGO MUITO ESPECIAL ACONTECEU!!!

Texto e Fotografia: Naty Lages


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